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Incerteza eleitoral pode adiar até R$ 62 bi em consumo no varejo neste ano

há 2 horas
4 min de leitura

Em anos de transição de governo, consumo costuma avançar, mas material de construção já sinaliza desaceleração


Fonte: Banco de Imagens WIX
Fonte: Banco de Imagens WIX

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar-FIA Business School), com duas décadas de dados de vendas do varejo — a PMC, do IBGE — cruzados com a atividade geral da economia — o IBC-Br, divulgado pelo Banco Central — identificou um padrão que se repete há 20 anos e um risco que só apareceu duas vezes: quando a eleição presidencial chega empatada, o consumidor trava a compra de maior valor. O efeito pode custar ao comércio até R$ 62 bilhões em um único trimestre.


Com o país às vésperas de uma eleição que reúne o maior índice de incerteza de política econômica (EPU-Brasil) já registrado no início de um ano eleitoral presidencial — 238 pontos, ante 177 em 2022 e 146 em 2014 — e pesquisas mostrando os dois principais candidatos separados por margem apertada, o estudo indica que 2026 reúne justamente as condições que, no passado, precederam o maior recuo do varejo em ano de eleição.


Em anos eleitorais, o varejo costuma crescer


Historicamente, ano de eleição é bom para o varejo. No trimestre de agosto a outubro, sob os governos de FHC, Lula, Dilma e Temer, todas as principais linhas do setor cresceram acima do padrão dos demais anos, com destaque para veículos, cuja vantagem chegou a 5,5 pontos percentuais.


O padrão se repete independentemente do campo político no poder. A dinâmica, porém, se inverteu apenas duas vezes — justamente nas duas eleições decididas por menos de 5 pontos percentuais no segundo turno: 2014 e 2022.


Nesses anos, o varejo ampliado ficou 2,3 e 4,8 pontos percentuais abaixo do ritmo da própria economia, respectivamente, no trimestre da votação. Em eleições consideradas mais tranquilas, o setor chegou a apresentar vantagem de até 3,9 pontos percentuais. A interpretação do estudo é que o consumo não foi cancelado, mas adiado para depois de saber quem venceria.


O impacto pode chegar a R$ 62 bilhões


O varejo ampliado brasileiro fatura cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, o equivalente a aproximadamente R$ 1,08 trilhão por trimestre. Nesse cenário, cada ponto percentual de crescimento perdido no trimestre da eleição representa cerca de R$ 10,8 bilhões.


Nas duas eleições marcadas por empate técnico, o setor ficou 5,8 pontos percentuais abaixo do seu padrão esperado. O resultado representa um possível freio de até R$ 62 bilhões que deixou de passar pelo caixa do comércio.


Construção civil já mostra sinais de cautela


O segmento de materiais de construção, considerado o mais afetado em 2022, já opera 2,7 pontos percentuais atrás da economia no acumulado do ano, tornando-se o primeiro indicador a sair do roteiro observado historicamente.


Ao mesmo tempo, a confiança do consumidor, medida pela FGV, caiu pela quarta vez consecutiva, para 84,7 pontos, puxada principalmente pelas expectativas.


No mercado financeiro, as projeções de PIB para 2027 no Boletim Focus apresentam dispersão três vezes maior do que as projeções para 2026. O dado indica que o desacordo entre os economistas está concentrado, sobretudo, no período posterior à eleição.


Estímulo e cautela acontecem ao mesmo tempo


Paradoxalmente, o estímulo pré-eleitoral também está em curso. Os emplacamentos de veículos cresceram 16,9% em agosto, o terceiro melhor resultado da história para o mês, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).


Assim, os dois movimentos do ciclo eleitoral — o impulso e a cautela — estão acontecendo simultaneamente e podem ser observados nos indicadores econômicos.


Impulsionado por restaurantes, varejo acelerou no primeiro semestre


O varejo brasileiro encerrou o primeiro semestre de 2026 com alta de 2,9%.

É o que revelam os dados consolidados do Mastercard SpendingPulse, indicador que mede as vendas do varejo físico e online, contemplando todos os meios de pagamento e sem ajuste inflacionário.


Após um início de ano mais tímido, com alta de 1,6% no primeiro trimestre em relação aos três primeiros meses de 2025, o consumo das famílias ganhou tração no segundo trimestre, avançando 4,1% na comparação com o mesmo período do ano passado.


A análise semestral, que monitora 11 setores da economia, revela uma mudança no padrão de consumo do brasileiro. Enquanto setores ligados a serviços e bens de consumo imediato registraram altas consistentes nos seis primeiros meses do ano, bens duráveis enfrentaram retração.


Restaurantes lideram crescimento


O grande motor do varejo no semestre foi o setor de restaurantes, que registrou crescimento consolidado de 10,7% na primeira metade do ano.

O desempenho foi sustentado por altas de:


  • 10,1% no primeiro trimestre;

  • 10,4% no segundo trimestre.


O setor de farmácias também demonstrou resiliência, com altas consistentes de 9,9% no primeiro trimestre e 9% no segundo. Já o setor de combustíveis automotivos chamou atenção ao saltar para 12,7% no segundo trimestre, refletindo a volatilidade dos preços do petróleo.


Bens duráveis perdem força


Em contrapartida, os consumidores adotaram uma postura mais cautelosa em relação às compras de maior valor.


O setor de móveis e decoração apresentou desaceleração ao longo do primeiro semestre:

  • -4,7% no primeiro trimestre;

  • -3,7% no segundo trimestre.


O segmento de eletrônicos, por sua vez, recuou 4,7% entre abril e junho.

Os dados reforçam a diferença entre o comportamento observado nas categorias de consumo imediato e aquele registrado em produtos de maior valor, que tendem a ser mais sensíveis à incerteza econômica.


Centro-Oeste lidera crescimento regional


Sob a perspectiva geográfica, o primeiro semestre de 2026 confirmou um ritmo de consumo heterogêneo no Brasil, marcado pela descentralização econômica.

Todas as cinco regiões do país registraram crescimento no semestre, mas em velocidades distintas.


O Centro-Oeste consolidou-se como a região com maior crescimento do varejo nacional nos dois trimestres consecutivos, avançando:


  • 2,5% no primeiro trimestre;

  • 5,4% no segundo trimestre.


No extremo oposto, a Região Sudeste, historicamente o maior polo de consumo do país, registrou o avanço nacional menos acelerado nos dois períodos:


  • 0,1% no primeiro trimestre;

  • 3,5% no segundo trimestre.


Pernambuco e Distrito Federal se destacam


Entre os estados e unidades federativas, Pernambuco e Distrito Federal despontaram com os desempenhos mais fortes e consistentes do semestre.


Pernambuco registrou:

  • +5,4% nos primeiros três meses do ano;

  • +12,2% no segundo trimestre.


Já o Distrito Federal apresentou:

  • +4% no primeiro trimestre;

  • +6,6% no segundo trimestre.


Os números mostram que, apesar da aceleração do consumo no primeiro semestre, o comportamento do varejo permanece desigual entre setores e regiões — com serviços e consumo imediato sustentando o crescimento, enquanto bens duráveis começam a refletir uma postura mais cautelosa dos consumidores.

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