Economia em 2026: como previsões de juros, inflação e reforma tributária impactam os empreendedores
- 6 de jan.
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Cenário econômico indica alívio nos juros, inflação controlada e aumento de custos com a transição tributária

O ano promete fortes emoções no noticiário econômico, o que deve agitar a rotina dos empreendedores brasileiros. Estão no radar questões como os primeiros passos concretos da Reforma Tributária, eleições e uma potencial redução nos índices de inflação e juros, segundo o Boletim Focus. As quedas, ainda que leves, podem trazer uma melhora em relação ao ano anterior para as pequenas e médias empresas, com a possível redução de custos operacionais.
Ter tudo isso em vista é decisivo para entender se é o melhor momento para traçar investimentos ou se é hora de se planejar melhor. PEGN conversou com especialistas para traçar um panorama sobre as principais previsões para a economia em 2026 e como as PMEs podem reagir aos novos cenários. Confira:
PIB
De acordo com o boletim Focus, a previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é de 1,8% em 2026, o que representa um valor abaixo da expansão dos últimos anos. Em 2025, por exemplo, a taxa deve fechar em 2,26%.
Para Ahmed El Khatib, professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), o crescimento moderado sugere uma demanda interna contida, impactando o setor de comércio e serviço.
“Com um crescimento mais baixo, as PMEs podem enfrentar redução da velocidade de expansão das vendas e desafios adicionais para ampliar participação de mercado, especialmente se não conseguirem se adaptar rapidamente às condições de consumo mais cauteloso”, analisa.
Inflação
A projeção da inflação ficou em 4,05%, dentro da faixa da meta de tolerância do Banco Central. Em 2025, a taxa média ficou em 4,32%. “Na prática, isso significa que, embora a inflação ainda esteja presente, ela deve se acomodar mais do que nos anos anteriores, reduzindo a pressão sobre os preços que as PMEs enfrentam em seus custos operacionais”, explica Khatib.
O ambiente estável favorece o planejamento de estoque e precificação, o que ajuda as pequenas empresas a manterem margens mais previsíveis, como aponta José Carlos de Souza Filho, professor da FIA Business School. “Ainda, boa parte das pequenas e médias empresas atuam em serviço e comércio. A inflação impacta diretamente no bolso do consumidor. Se ela de fato cair, os negócios tendem a manter ou aumentar o faturamento em 2026”, complementa Ruy Afonso Santacruz, professor do curso de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).
“Por outro lado, setores com forte peso de insumos importados ou energia ainda podem viver volatilidade nos preços, traduzindo-se em desafios adicionais de gestão de custos”, adiciona Khatib.
Taxa Selic
A Selic, taxa básica de juros no Brasil, deve cair ao longo de 2026, ficando em 12,13% até o final do ano, contra 15%, em 2025. O valor, no entanto, ainda é considerado elevado pelos especialistas. “Com a inflação sendo controlada, naturalmente vai acontecer uma redução da taxa de Selic, que pode acontecer logo em janeiro ou em meados de março”, observa Santacruz.
Para as PMEs, uma taxa elevada resulta em maior custo de capital, o que vai influenciar em financiamentos, empréstimos e linhas de crédito. “Mesmo com a expectativa de cortes em 2026, os juros continuarão restritivos, dificultando expansão por meio de investimentos financiados e diminuindo a atratividade de novos projetos de expansão ou aquisição de ativos”, opina Khatib.
Ainda que os desafios continuem existindo no cenário previsto para 2026, a leve redução da Selic pode melhorar os empréstimos em relação a 2025. “A queda dos juros melhora esse cenário por dois lados: facilita o acesso a empréstimos para manter e expandir as operações e, ao mesmo tempo, estimula o consumo, aquecendo a atividade econômica como um todo.
Além disso, há uma redução no custo do financiamento, o que é um fator importante para a sustentabilidade das pequenas e médias empresas”, diz o professor da UFF.
Segundo Khatib, a redução gradual dos juros pode fazer com que os bancos reaqueçam linhas de crédito ao longo do ano, em especial, para projetos de menor risco. “Ainda, a tendência de digitalização e inovação em serviços financeiros, como fintechs e crédito alternativo, pode ampliar opções de financiamento para micro e pequenas empresas”, adiciona.
Reforma tributária
No dia 15 de dezembro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o Projeto de Lei Complementar (PLP) nº 108/2024, que cria o Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que deve afetar a Reforma Tributária. O texto vai à sanção presidencial, em data ainda não divulgada.
A mudança principal está sobre os impostos sobre o consumo. PIS, Cofins, ICMS e ISS serão substituídos por dois novos impostos: a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de âmbito federal, e o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que reunirá a tributação estadual e municipal.
“Outro ponto relevante é a extinção gradual de incentivos fiscais, principalmente os relacionados ao ICMS. Atualmente, existem diversas regras e benefícios específicos vinculados a cada tributo, e esses incentivos deixarão de existir ao longo do período de transição”, explica Graziela Fortunato, especialista em finanças pessoais da Escola de Negócios (IAG) PUC-Rio.
“O novo modelo será implantado progressivamente, começando no próximo ano [2026] e com substituição completa dos antigos impostos e contribuições (ICMS, ISS, PIS, Cofins, IPI) somente em 2033, quando o Brasil adotará plenamente um Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) dual, composto pela CBS e pelo IBS”, diz texto divulgado pelo Ministério da Fazenda em 2025.
Na prática, as empresas precisam se adaptar aos novos sistemas de cálculo de tributo (com capacitação de equipe e adoção de novas tecnologias), o que deve trazer custos adicionais.
“Como a tributação impacta diretamente o preço dos produtos e serviços, será necessário rever estratégias de precificação, o que pode afetar a competitividade e a estrutura estratégica das empresas”, fala Fortunato. “Podem surgir desafios que ainda não estão totalmente tangíveis, como custos de transição não previstos, perda de incentivos fiscais e insegurança jurídica, algo comum em períodos de mudança estrutural no sistema tributário”, acrescenta.
Para 2026, Fortunato explica que será possível realizar testes com os novos tributos, o IBS e a CBS, que serão aplicados com alíquotas simbólicas – podendo ser compensados com os impostos atualmente existentes.
Apesar do desafio inicial de adaptação, a longo prazo, especialistas acreditam que o modelo traz uma simplificação ao substituir quatro impostos por dois. “O objetivo é reduzir a burocracia, que hoje é bastante complexa no país. A expectativa é que isso contribua para um ambiente de negócios mais eficiente, estimulando o crescimento econômico, o desenvolvimento das empresas e, consequentemente, do país como um todo”, ressalta.
Eleições
As eleições presidenciais no próximo ano também devem ser ponto de atenção aos empreendedores – já que rixas e mudanças políticas podem afetar o cenário econômico nacional. “A proximidade das eleições gerais de 2026 adiciona uma camada de incerteza fiscal e de políticas públicas, o que pode afetar decisões de investimento tanto de grandes empresas quanto de PMEs”, analisa Khatib.







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